Voltar aos ArtigosSecretária com calculadora, caneta, chaves e uma maquete de casa sobre uma proposta de créditoCrédito

Spread baixo, crédito caro: os termos do crédito habitação

Atualizado em outubro de 2026 · 8 min de leitura

A Marta e o Rui tinham dois créditos à frente. O Banco B tinha a prestação mais baixa: 898 € por mês, contra 932 € do Banco A. Escolheram o A, e poupam cerca de 7.800 €. O que os salvou foram umas quantas siglas que, meses antes, nem sabiam que existiam.

Esta é a história deles. A Marta e o Rui são fictícios e os valores são ilustrativos, mas cada situação é uma que vais encontrar numa compra de casa. Percebe os termos quando eles aparecem, e não depois de assinares. Se só precisas da definição rápida, salta para a Cola rápida.

3.200 €
rendimento líquido mensal do casal
38.000 €
poupanças
230.000 €
preço do T2

A Marta tem 36 anos e o Rui 38. Pagam 180 € por mês de um carro e querem comprar um T2 para viver. Nunca pediram um crédito à habitação.

Cena 1 · DSTI

Taxa de esforço (DSTI): a pergunta que o gestor faz logo no início

«Qual é a vossa taxa de esforço?», pergunta o gestor.

O Rui olha para a Marta. Nenhum dos dois sabe responder.

É o peso das prestações no rendimento mensal líquido. O Banco de Portugal chama-lhe DSTI (debt service-to-income), e o cálculo soma todos os créditos: casa, carro, cartões. Desde 1 de agosto de 2026, o Banco de Portugal recomenda que não passe dos 45% (antes, 50%).

35%
taxa de esforço do casal (930 € de casa + 180 € de carro = 1.110 €)
45%
limite recomendado

Dentro do limite, mas o gestor avisa que o banco calcula com cenários agravados, por isso o rácio que ele usa pode ser superior ao deles.

Cena 2 · LTV

LTV e entrada: quanto é que o banco empresta?

«Financiamos até 90%», diz o gestor.

É o LTV (loan-to-value): a percentagem do valor da casa que o banco financia. Na habitação própria permanente, o limite habitual é de 90%.

207.000 €
crédito (90% de 230.000 €)
23.000 €
entrada (os outros 10%)
~9.900 €
impostos, escritura e custos do crédito

A entrada não é tudo. Os custos estão detalhados no passo a passo, do CPCV à escritura. A Marta e o Rui concluem que precisam de uns 33.000 €. Têm 38.000 €. Está tudo bem, por agora.

Cena 3 · CPCV

CPCV e sinal: o contrato que já os obriga

Um mês depois, encontram o T2. O vendedor propõe assinar um CPCV, o contrato-promessa de compra e venda, e pede um sinal de 23.000 €.

«Mas ainda nem temos o crédito aprovado!», diz o Rui.
«Por isso é que o contrato vai ter uma cláusula a dizer que o negócio depende dessa aprovação», responde o advogado que contrataram.

Com o sinal, ambos se comprometem: se os compradores desistirem sem motivo legal, perdem-no; se o vendedor falhar, devolve-o em dobro. O advogado trata também do reconhecimento presencial das assinaturas, que a lei exige num CPCV de imóvel. Ainda não há hipoteca nem IMT: isso vem mais tarde.

Cena 4 · Avaliação

Avaliação bancária: quando o LTV prega uma partida

O banco manda um perito avaliar a casa (cerca de 250 €, pagos pelos compradores, mesmo que o crédito não avance). O resultado: 225.000 €, menos do que os 230.000 € do preço.

Os 90% passam a ser calculados sobre 225.000 €.

202.500 €
novo crédito máximo
27.500 €
capital próprio necessário (eram 23.000 €)

A diferença sai do bolso deles. As poupanças de 38.000 € ainda chegam, mas com menos folga.

Cena 5 · FINE

FINE: o documento que decide tudo

Passadas umas semanas, dois bancos aprovam o crédito. Cada um entrega uma FINE (Ficha de Informação Normalizada Europeia): o documento padrão com montante, prazo, taxa, comissões, seguros e custo total. Existe para poderes comparar propostas lado a lado.

Duas regras ajudam:

  • A proposta é válida durante, pelo menos, 30 dias.
  • Existe um período de reflexão de, no mínimo, 7 dias, durante o qual o contrato de crédito não pode ser assinado.

A Marta e o Rui usam esse tempo para comparar. E o que procuram na FINE: a TAEG, o MTIC, os seguros e as comissões.

Cena 6 · Spread e TAN

Euribor, spread e TAN: de onde vem a taxa

Nas duas FINE, a taxa tem a mesma estrutura:

Euribor + spread = TAN

A Euribor é a taxa de referência do mercado europeu (o indexante), revista a 3, 6 ou 12 meses, e é ela que faz a prestação subir e descer num crédito de taxa variável. O spread é a margem do banco. A soma das duas é a TAN (taxa anual nominal), a taxa de juro simples, sem custos extra.

  • Banco A: Euribor de 2,5% + spread de 1,2% = TAN de 3,7%. Prestação: cerca de 932 € por mês.
  • Banco B: Euribor de 2,5% + spread de 0,9% = TAN de 3,4%. Prestação: cerca de 898 € por mês. Mas este spread só vale se o casal contratar seguros e outros produtos no banco (é o chamado spread bonificado).
«O B é claramente melhor», diz o Rui.

A Marta hesita. Há ainda a hipótese de taxa fixa (não muda durante o período acordado) ou mista (fixa nos primeiros anos, depois variável), que também compararam. Mas na FINE há mais um número.

Cena 7 · TAEG

TAEG: o número que desfaz a ilusão

A TAEG (taxa anual de encargos efetiva global) é o custo total do crédito, expresso em percentagem anual. Inclui os juros, mas também comissões, seguros e impostos associados. Por isso é a medida certa para comparar propostas.

4,3%
TAEG do Banco A
4,5%
TAEG do Banco B

O B tem a TAN mais baixa, mas seguros mais caros (110 € por mês contra 55 €) e uma comissão de abertura de 500 € (contra 250 €).

Cena 8 · MTIC

MTIC: quanto vão pagar, de facto

O Rui multiplica a prestação por 360 meses e fica espantado. A FINE tem um número que faz isso por eles: o MTIC (montante total imputado ao consumidor), o total que o casal vai pagar ao longo do crédito, com capital, juros e restantes custos.

Banco A vs Banco B
CondiçãoBanco ABanco B
Spread1,2%0,9% (com produtos no banco)mais barato
TAN3,7%3,4%mais barato
Prestação do crédito932 €898 €mais barato
Seguros por mês55 €mais barato110 €
Comissão de abertura250 €mais barato500 €
TAEG4,3%mais barato4,5%
MTIC (total a pagar)355.600 €mais barato363.400 €

O Banco B ganha na prestação. O Banco A ganha no que interessa: cerca de 7.800 € a menos no total. E, para o Banco A, são mais de 150.000 € além dos 202.500 € emprestados. O MTIC é calculado com os pressupostos da FINE, por isso, num crédito de taxa variável, o valor real depende da evolução da Euribor.

O casal escolhe o Banco A.

Cena 9 · Hipoteca

Hipoteca e escritura: as chaves, finalmente

No dia da escritura, feita no Casa Pronta, o banco regista a hipoteca: a garantia que dá ao banco o direito de vender a casa se o casal deixar de pagar. Só é cancelada quando o crédito estiver pago na totalidade. No mesmo dia pagam-se o IMT, o Imposto de Selo e a escritura com os registos (no Casa Pronta, 700 € numa compra com crédito). Podes ver como se calculam no guia do IMT e no guia do Imposto de Selo.

A Marta e o Rui recebem as chaves.

As 5 lições da Marta e do Rui

  1. 1
    Calcula a taxa de esforço antes de procurar casa, com folga abaixo dos 45%.
  2. 2
    Lembra que o LTV se aplica ao menor valor entre o preço e a avaliação, e guarda uma margem para essa diferença.
  3. 3
    No CPCV, exige a cláusula do crédito.
  4. 4
    Usa os 7 dias de reflexão para comparar propostas.
  5. 5
    Compara pela TAEG e pelo MTIC, e não só pelo spread.

Cola rápida: os termos numa linha

TermoO que éOnde o encontras
FINEFicha padrão com as condições da proposta de créditoNa proposta do banco
TANTaxa de juro nominal (Euribor + spread), sem custos extraNa FINE
EuriborTaxa de referência do mercado europeu, revista a 3, 6 ou 12 mesesNa FINE e na revisão da prestação
SpreadMargem do banco, que pode ser reduzida com produtos adicionaisNa FINE
TAEGCusto total do crédito em percentagem anual, com comissões, seguros e impostosNa FINE
MTICTotal que vais pagar ao longo do créditoNa FINE
LTVPercentagem do valor da casa financiada pelo banco, sobre o menor valor entre preço e avaliaçãoNa conversa com o banco e na avaliação
DSTI (taxa de esforço)Peso das prestações de todos os créditos no rendimento líquido. Recomendação de 45% desde 1 de agosto de 2026Na análise do teu pedido
CPCVContrato-promessa de compra e venda, com sinalAntes de o crédito estar aprovado
HipotecaGarantia do banco sobre a casaNa escritura

Simula o teu caso

A Marta e o Rui são fictícios, mas os teus números são reais. No Simulador Casa escolhes o tipo de imóvel e vês, numa folha só, a entrada, os impostos, a escritura e os registos, os custos bancários e outros custos. Podes guardá-la em PDF ou partilhá-la.

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Este artigo tem fins informativos e não substitui aconselhamento financeiro ou jurídico. As taxas, prestações, TAEG e MTIC do exemplo são ilustrativos e dependem de cada banco e do momento. Regras de outubro de 2026, que podem mudar.